
A lágrima extra
O dia prometia ser quente e úmido — combinação ideal para cabelos rebelados e para quem trabalha imóvel ao ar livre. Depois de entregar o filho à vizinha que o levaria à creche, voltou ao seu reino: um quarto-cozinha-banheiro, tudo no mesmo perímetro afetivo.
Abriu o velho armário que rangia como se quisesse dar opinião. De lá tirou seu uniforme de batalha: camisa preta com gravata borboleta, colete branco, calças bufantes que herdara de algum século passado, meias brancas e sapatos pretos tão lustrados que poderiam servir de espelho, se não fosse ele já ter um.
No espelho, iniciou o ritual. Espalhou a base branca, delineou os olhos caídos — reflexo do estado civil com o sono — e arqueou as sobrancelhas como quem diz “não fui eu”. Demarcou o sorriso e, por fim, a lágrima no canto esquerdo, que sempre julgou exagerada, mas o público adorava um dramalhão. Vestiu as luvas, ajeitou a boina e testou o sorriso congelado. Parecia irreconhecível. E ligeiramente ridículo. Perfeito.
Desceu pela ladeira até o parque municipal, seu escritório a céu aberto. Ali ficava por horas, imóvel, trocando de pose apenas para evitar virar uma estátua de sal. Ganhar dinheiro era quase um milagre; mas, com sorte, rendia legumes, arroz e, quando a semana era boa, até um iogurte para o filho.
O público passava, ria, deixava moedas. Ele reconhecia cada reação: o adulto curioso, a criança encantada, o adolescente que tentava fazê-lo piscar. Em suas poses — a mão ao céu, a cara de susto, o herói carregando o mundo — havia mais ciática que simbolismo, mas ninguém precisava saber disso.
Estava justamente no papel de Atlas contemporâneo quando ouviu uma voz conhecida. Congelou ainda mais do que a profissão exigia. Um grupo de crianças da creche vinha em direção a ele. No meio delas, seu filho.
Ótimo. Justo hoje que o suor ameaçava soltar a maquiagem e revelar que o palhaço, na verdade, precisava urgentemente de um ventilador e não de aplausos.
As crianças o cercaram, rindo e rodopiando, como se ele fosse um planetário com pernas. O pânico subia como a maré. Se a base branca derretesse, fim do mistério.
Seu filho parou bem diante dele, apertando os olhos como quem tenta decifrar um código secreto.
— Professora… por que o palhaço está chorando?
Ele prendeu a respiração.
— Sabe, meu pai tem um trabalho sério — mas lá em casa ele gosta de fazer palhaçada pra mim.
A gente ri um montão. Mas ele nunca chora…
E ali ficou o palhaço: imóvel, suando, com a lágrima oficial pintada e outra teimando em escorrer, tentando decidir qual delas era a mais difícil de explicar.













